terça-feira, 10 de agosto de 2021

Tarde


A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira
Trabalho poético. Lisboa: Sá da Costa, 1998

sábado, 24 de julho de 2021

Leituras - 126


Quando é um longo poema que não tem interrogação mas que nos interroga. Que nos lembra Senhora das Tempestades mas, aqui, com dez cantos, com os quais Manuel Alegre pretende dar-nos um testemunho. Um emocionante testemunho de vida, de mundo, de poesia. Nele o leitor é confrontado com a passagem do tempo: o tempo que passou, as vivências; mas também o tempo presente que é um tempo fechado; e ainda as várias pragas que tapam o horizonte, o tempo que há de vir. Aqui, nestas páginas, está a vida de todos nós. Na leitura destas estrofes encontramos referências a Homero, Virgílio, Dante, Camões e Shakespeare mas também a Bob Dylan e a Mandela, à guerra colonial, a Estaline, ao Maio de 68 até à América onde se twita. Um texto de uma modernidade que impressiona.