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terça-feira, 15 de setembro de 2020

Pequena elegia de Setembro

Pintura de R.Mazoyer 

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

domingo, 14 de julho de 2019

Que voz lunar


Que voz lunar insinua
o que não pode ter voz?

Que rosto entorna na noite
todo o azul da manhã?

Que beijo de oiro procura
uns lábios de brisa e água?

Que branca mão devagar
quebra os ramos do silêncio?

Eugénio de Andrade

sábado, 22 de dezembro de 2012

Início do Inverno


Velho, velho, velho. 
Chegou o Inverno. 
Vem de sobretudo, 
Vem de cachecol, 
O chão onde passa 
Parece um lençol. 
Esqueceu as luvas 
Perto do fogão: 
Quando as procurou, 
Roubara-as um cão. 
Com medo do frio 
Encosta-se a nós: 
Dai-lhe café quente 
Senão perde a voz. 
Velho, velho, velho. 
Chegou o Inverno. 

 Eugénio de Andrade