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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A França, sempre!


O Presidente François Hollande mais uma vez mostrou incorporar as mais admiráveis virtudes da República Francesa. O discurso que fez ontem em Versalhes foi corajoso, prático e, acima de tudo, claro. Mostrando a poderosa utilidade do laicismo, Hollande defendeu que foram franceses que assassinaram franceses. Está correto.
Recusando-se a falar noutras identidades religiosas ou culturais que só servem para estabelecer a confusão e a cegueira, Hollande propôs levar à votação medidas severas para poder reforçar a segurança do Estado contra os ataques e os assassinos terroristas.
Não é apenas François Hollande que suscita o nosso afeto e respeito: mais uma vez, os cidadãos da França dão ao mundo um exemplo de firmeza e maturidade civilizacional. É uma civilização de perpétua polémica, de insistência na diferença e no debate, cuja saúde cultural vem dessa sempre inquieta e acesa discussão. Nem sequer se procuram consensos. Procuram-se as luzes e as faíscas dos confrontos de ideias e de paixões: é o contrário duma paz calada e chocha. Hollande, como todos os presidentes franceses, é impiedosamente atacado desde o dia em que tomou posse. Mas também é apoiado por muitos dos maiores detractores quando a república de todos os cidadãos é atacada.
É plausível pensar que se não fosse Hollande o Presidente, mas outro político francês, da mesma ou doutra força política, teria a mesma coragem, frontalidade e sentido de Estado. É, também, consolador.

Miguel Esteves Cardoso
Público, 17 nov. 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Ricardo Mealha: Ainda ontem

Tive a sorte de conhecer Ricardo Mealha. Era um génio e sabia-o. Sendo também inteligente e generoso, fazia tudo para esconder o génio dele dos outros.
Nunca trabalhei com ele. Apenas me entregou o projecto gráfico, lindo e completo até ao último pormenor, da revista A Preguiça. Mas fez-me sentir que eu estava tão envolvido no resultado final como ele. Mentira. Foi ele que fez tudo à volta das fotografias da igualmente genial Inês Gonçalves, amiga minha, que o recomendou e convenceu.
Estou tão triste. Não consigo imaginar a tristeza dos muitos, verdadeiros amigos dele, dentro e fora da família dele. Mas se a dor de quem apenas o conheceu duas vezes é esta toda, então sim, imagino a dor de quem teve a sorte de conhecê-lo melhor, de ser amigo ou amiga dele ou amá-lo.
Na quinta-feira passada, dia 22, Ricardo Mealha fez 47 anos. Estava a morrer com um cancro no cérebro. Como é que aquela cabeça tão luzidia e alegre, tão e sfuziante e criadora, tão sábia e desobediente, foi apagada tão cedo?
As notícias falam dos trabalhos dele, todos eles, sem falta, perfeitos. Ricardo Mealha empenhava-se em tudo. É um dos vícios do génio: não conseguir reprimir-se ou escolher.
O único sinal humano veio de outro génio da comunicação: Manuel Reis, do Lux, que trabalhou mais de 20 anos com ele. Disse ele que talvez a qualidade mais importante de Ricardo Mealha era a capacidade dele “de arriscar, de experimentar e de fazer diferente”.
É isso. É.

Miguel Esteves Cardoso
(Público, 27.10.2015)

domingo, 8 de julho de 2012

A Mãe Lurdes




"Anteontem, à tardinha, nómadas entre casas, cansados das mudanças e dos dias, andávamos a precisar de mimos. A refeição seguinte seria, depois de um jejum, um jantar no hospital. Tinha de ser especial; saber à casa perdida e à casa que aí vem, ambas tristemente equidistantes naquele momento. Entrámos na Adega das Azenhas (do Mar), onde a Dona Lurdes cozinha como uma mãe. Tivemos a sorte de apanhá-la, demos beijinhos e, como sempre, ela entendeu, como por osmose, o que a Maria João precisava. A Maria João explicou que andava à toa, com medo do que lhe ia acontecer, e que já nem sequer sabia o que lhe apetecia comer." 
Miguel Esteves Cardoso
(Público, Lisboa, 22 junho 2012)